2 de julho de 2007

AS FLORES VISTAS DE BAIXO (3)



Dentro da casa, Vale estava estendida de costas sobre o edredão de riscas azuis. Sabia que em breve a mãe a chamaria. Mas a minha irmã mais velha era assim mesmo: dormia sobre as obrigações e sonhava com o que não se encontrava ali. Era preciso estar sempre a chamar-lhe a atenção durante as aulas de gramática. Vale imaginava-se sempre longe, num lugar livre de deveres. Um sítio onde não lhe seria exigido nada mais do que uma ordem breve, ou a expressão de um desejo. E, contudo, era a primeira a focar-se no que havia para fazer sempre que uma desgraça acontecia.
O pai não estava à vista. Mas podíamos ouvir o ruído da sua serra hidráulica, alimentada pela água do pequeno riacho (que ele apresara, de resto). O pai era assim: podíamos sempre ouvi-lo. E, se prestássemos atenção, cheirá-lo. Esse cheiro de resina de árvores e camisas suadas dava-nos a todos uma sensação de segurança. Mesmo quando as árvores pareciam crescer sobre a clareira onde ele reconstruíra a nossa casa, a partir de uma velha barraca; mesmo quando as nuvens fugiam da montanha ao fundo e se juntavam sobre as nossas cabeças para nos ameaçar com o dilúvio.
Foi ele que me endireitou as golas da camisa de flanela azul. O que me passou a mão pelos cabelos que pareciam querer fugir para longe do lugar onde os tencionava manter. Deixou-me à distância exacta a que um pai deve deixar o filho que entra para o seu primeiro baile. E permitiu entre nós o necessário silêncio. Para que eu pudesse saborear mais um pouco o riso das bocas das raparigas que, excitadas, tinham partilhado comigo uma dança.

28 de junho de 2007




Depois de um breve inquérito conduzido por duas esplendorosas (e bem vestidas) hostesses, o visitante é conduzido através de um percurso que lhe permitirá melhorar as suas competências na área do sucesso nacional. Capacetes que transmitem cultura instantânea, permitindo ouvir tudo o que interessa ouvir para fazer um brilharete, alternam com outros que conduzem à Felicidade Fácil. Rir de qualquer coisa e sentir-se bem sem mergulhar um centímetro que seja na profundidade de um problema. Também a necessidade de atribuir uma nova terminologia será abordada. Assim, os candidatos ficarão a conhecer os novos significados de “Casa”, “Caixa de cartão”, “Juiz” ou “Portugal”, entre outros vocábulos. É a PLEBs, terminologia adequada ao cidadão-carneiro e falido.

No fim, a possibilidade de auto-análise e de ver os melhoramentos num espelho. Todos os participantes receberão como prémio uma senhora idosa que nunca entendeu o sentido estético de Arthur Schopenhauer*.

Festival Pedras d'Água
13 e 14 de Junho (sexta e sábado), das 19h às 21h
RUA AUGUSTA, Lisboa

25 de junho de 2007


A FLORES, VISTAS DE BAIXO (2)

De vez em quando, olhava para a minha mãe que lavava no tanque grande. A pilha de roupa começava a ceder, flutuando num dos lados sobre uma mancha branca de sabão. Era a parte de enxaguar; a que ela tinha pedido ao pai que lhe construísse, durante pelo menos 3 anos. A minha mãe esfregava a roupa de cá para lá e de lá para cá, rasgando os dedos finos e vermelhos contra as areias que tinham sido coladas à pedra de apoio para melhor arrancar as notas de unto. Também ela levava por vezes a mão ao cabelo para o desviar da cara, soprando, e observava Jacinta. Assegurava-se de que ela continuava à vista e não se tinha voltado a lembrar de fazer uma fogueira com pilhas de paus. Jacinta sabia fazer fogos maravilhosamente realistas para a sua idade. E mesmo se não chegava à fase de os acender, ainda assim, as suas bonecas pareciam contorcer-se de dor, prisioneiras das posições em que as deixava. A minha mãe não queria arriscar esta visão.

24 de junho de 2007

AS FLORES, VISTAS DE BAIXO (1)

Eles vieram de noite. Atravessaram os campos de lírios com as botas cardadas; as botas que tinham generosamente engraxado desde as primeiras horas do entardecer. As mulheres arregaçaram as saias e desviaram os cabelos dos olhos claros. Os homens levaram uma das mãos, várias vezes, às calças de tecido grosseiro, ali, onde a comichão parecia querer comer-lhes as virilhas. As crianças seguiam ora à frente, ora atrás, os olhos ainda mais frios que os das mulheres porque não reflectiam nem a luz das tochas que traziam nas mãos nem o rasto das estrelas que passavam por cima deles. Saíram de noite e atravessaram os campos. Saíram de noite e meteram os pés dentro dos ribeiros e fizeram rolar as pedras por onde os animais passavam.
A minha irmã Jacinta brincava com a boneca de pano. E ainda com outra, a preta de cabeça de massa, julgo, debaixo do telhado de madeira. Falava com elas, ralhando-lhes por não terem feito isto ou aquilo. Ensinava-as, ainda, a comportarem-se à mesa. “Não se pode cantar", ralhava, severa. Pelas costas, os cabelos espalhados em caracóis.

CONTO INÉDITO (EM PORTUGAL)

Numa época em que as editoras e os livreiros nos tratam como colecções Primavera-Verão que é preciso renovar ou esquecer na estação seguinte, vou começar a publicar aqui alguns inéditos.
O primeiro conto, saiu apenas no México e chamei-lhe "As flores, vistas de baixo".
Vou deixando pedacinhos, porque os posts, mesmo os literários, são para se ir lendo.

22 de junho de 2007

MICROFILMES

Para o ppl interessado em fazer filmes sem pensar demasiado na difícil tarefa de montar uma estrutura de produção, os alunos de produção da RESTART lançam um desafio:

"30'' em Lisboa | Concurso de Microfilmes
30 de Junho
O evento consiste num concurso de microfilmes - filmes de curta duração (30 segundos), feitos a partir de telemóveis com câmara - e é dirigido a um público jovem, interessado nas novas tecnologias.

Este concurso será realizado num único dia – 30 de Junho de 2007. Os vídeos poderão ser realizados a partir das 00h do dia 30 e terão de ser descarregados em dois espaços no Bairro Alto - a loja/bar SEM SIM e a galeria ROSA DA RUA - das 00h às 03h e das 15h às 19h.

Inscrições em 30segundos.publico.pt

Os microfilmes serão exibidos à noite numa festa no MUSIC BOX com a participação da banda MICRO AUDIO WAVES e do dj RUI MURKA. Simultaneamente proceder-se-á à entrega dos prémios aos vencedores.
a www.myspace.com/30seglx
30seg.lx@gmail.com."
SEM COMENTÁRIOS

Nos anúncios que o Google nos enfia ao lado dos e-mails ou dos posts, apareceu-me a seguinte proposta:

"Divirta-se com livros Cristãos Gratuitos sobre o evangelho da salvação"



Enfim...

20 de junho de 2007

Tenho saudades do Brasil.
AINDA AS ELEIÇÕES PARA A CÂMARA DE LISBOA, EM VERSO - FRACO - PARA ALIVIAR

Do debate de ontem na Sic Notícias percebeu-se o seguinte:

a) O Carmona não vive à tona (fuga para a frente e mente e mente)
b) O Mimoso Negrão é um bocado parvalhão (troca Setúbal por Lisboa, em frases à toa)
c) A Roseta é conciliadora... Logo, a óbvia perdedora (sejam amigos, diz, e os outros... vá de lhe virar o nariz)
d) O Costa está no castelo, aos ataques, riso amarelo (já ganhou na tranquilidade que conhecer o governo é governar a cidade)
e) O Ruben tem nome de teen, a foice velhinha espetada num pin (tudo para o quadro para aliviar a despesa que São Marx não nos falhará com certeza!)

Para resolver é o toca a vender. Para reduzir é o toca a substituir. Boys pelos boys, só mudam os cobóis!

19 de junho de 2007

ALIMENTAR-SE DE AR

É maravilhosa a confiança na falta de apetite dos criadores manifestada quer pelo Estado quer pelas instituições privadas que nos contratam. Para aqueles que invejam esta maravilhosa vida de criador mais ou menos reconhecido, fiquem a saber que a coisa não é bem o que parece. Os pagamentos de direitos e de participações em eventos variados são normalmente tirados a ferro. Nunca são a consequência imediata do nosso trabalho. Pelo contrário, actores, escritores e quejandos são vistos a maior parte do tempo a arrastar-se a pedir o que é deles.
A questão é: se os agentes culturais têm esta atitude de desprezo para com os criadores, como é que se pode esperar que o público os acarinhe sem reservas?
E isto não tem a ver com crise. Tem mais a ver com o facto de as "indústrias culturais" estarem em 3º lugar na contribuição para o PIB e de o Ministério da Cultura lhes atribuir em troca 0.7% do Orçamento Geral do Estado. Haverá discurso mais eloquente que este?

15 de junho de 2007

CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

Muito educativa a visita aos sites e blogues dos candidatos às eleições para a câmara de Lisboa. Permite ver, pelo número de apoiantes, quem são os vencedores e os vencidos. Como se sabe, os ratos são os primeiros abandonar o navio (veja-se a lista de apoiantes de Carmona) Recomendo vivamente o site do Negrão-PSD, embora se possa fazer download de toques de telemóvel AINDA NÃO HÁ PROGRAMA. Isto é, sabem que é giro ir a votos, só não sabem porquê. Isto é tão psd… A candidatura deveria chamar-se Mais Umas Argolas Para Pendurar Das Orelhas De Lisboa….
Enfim…
Outra constatação é o deserto de ideias no que se refere à Cultura. Helena Roseta, perante uma multidão de artistas a passar fome pensou que era boa ideia estourar milhões com uma Biblioteca na zona Oriental de Lisboa. .. No comments.
O PCP, que será quase certo responsável pelo pelouro da Cultura (uma vez que o PS não terá maioria e vai ter de ceder um pelouro qualquer e certamente se livrará do menos importante, o que é o mesmo que dizer que vamos ter o director do Avante a apoiar espectáculos das Neo-brigadas-Vitor-Jara… ) também não diz nada de relevante sobre o assunto.
A surpresa vem da Nova Democracia, onde Manuel Monteiro, por não ter nada a perder, optou por uma estratégia de utilização económica de recursos (youtube) para promover objectivos de ataque. Ou seja, o homem começou a dizer o que achava, uma vez que sabe que tão cedo não terá um tacho à espera. Onde se prova que a fominha aguça a honestidade.

12 de junho de 2007

ONDE SE REVELA UM SEGREDO

Muitas são as pessoas que me abordam para saber como se chega a esta condição de escritor. Ainda por cima com nomes invulgares. Como cada vez mais tento viver em despojamento, aqui deixo o meu segredo mais íntimo.
E em vídeo, para maior comodidade.

11 de junho de 2007

VILANOVA-ILHA TERCEIRA



"Escaleiras"

Olhando para o arranjo em cimento torna-se difícil lembrar como era este local de banho nos anos 80. E contudo, foi daquelas ondas para a frente que vi espécies de peixe como só ali se avistam ou cardumes de alforrecas ("águas-vivas") de longos e dolorosos tentáculos entre tantas aventuras. Olho para esta imagem, apesar de invernosa, e ouço as vozes dos meus amigos de adolescência a chamar da água.

10 de junho de 2007

UM-A-ZERO PARA O TOURO

Há touradas e touradas. A Julie enviou-me este link, para lembrar a festa principal da minha terra de afeição, a Terceira. Não sendo a coisa mais edificante do mundo, não é comparável com a carnificina que enche os bolsos a empresários e cavaleiros tauromáquicos aqui do continente. É uma bullfight... e o bull farta-se de ganhar :)
BURRO VELHO...

O Luís Pereira de Sousa volta de novo à história da televisão. Desta vez, como mau perdedor de sarcasmo duvidoso, além de falhado. Ao aceitar o convite dos Gatos para dar a cara por um dos seus inúmeros dislates e acabar oferecendo-lhes uma ratazana como "révanche", cobriu-se (voltou a) de ridículo. Para as gerações mais novas fica a informação que o senhor não tem um ou dois "tesourinhos deprimentes", tem 30 anos de dinheiros públicos usados na sua preparação. Claro que nesse esforço está acompanhado por muitas centenas de tele-medíocres.

7 de junho de 2007

PONTES, FERIADOS E DE COMO QUEM OS NÃO TEM, AINDA ASSIM APROVEITA PARA IR COM QUEM PODE






Presenciar de novo a luta dos ciclopes contra as falésias. Enquanto os Belmiros nos deixarem.

6 de junho de 2007

X FILES
A RTP entrou mesmo nas séries. Penso que isto será o piloto da versão portuguesa de Ficheiros Secretos...
SALDANHA SANCHES CONTRA OS IMPOLUTOS

O todo-poderoso sindicado dos juízes já se veio queixar muito que o jurista Saldanha Sanches anda a lançar sombra sobre o seu sempre brilhante trabalho.
Devem estar a gozar.
Primeiro, metade da população acha que há pilhas de corruptos a ganhar salário dentro do sistema judicial, magistratura incluída.
Segundo, mais 25 % acha que nessa área, como em todas, há de tudo. Sendo que o poder incontestado e inquestionável de que dispôem não ajuda nada.
Claro que se entende as razões corporativas do lobby, a começar pelo hábito de chegar aos mais de 5000 euros de reforma para todos eles. Enquanto quem dobrou a espinha a vida toda se tem de governar com 200 euros.
Mas, acontece que o 25 de Abril não trouxe só os sindicados oitocentistas, transportou também consigo a possibilidade de não comer e calar obrigatoriamente. Por isso, se há alguém no meio da carneirada que pergunta, vão ter de se aguentar.